Já faz mais de cem luas que ela se tornou a deusa da ilha dos Taureg Ru. Nesse período, ela aprendeu a contar o tempo da única forma que importa para aquele povo perdido em algum lugar perto do Trópico de Capricórnio. Antes Olivia Thompson, casada com o nobre inglês Bernard Thompson, agora era Alubí, algo como “o sol na nossa terra”. Com o naufrágio do Eastern Glory toda a vida pregressa foi apagada em definitivo. Para ela, agora, existia apenas a devoção cega de seus adoradores nativos. Os cabelos ruivos que denunciavam a origem escocesa, agora totalmente desgrenhados e armados nas seis direções, lembravam aos seus adoradores ainda mais o caráter solar da divindade que cultuavam, diferente do comportado coque que costumava usar quando era parte da aristocracia.
Pode-se dizer que ela se acostumou com a nova vida. Mais do que isso, apreciava enormemente a deferência que todos ao seu redor prestavam constantemente. Não havia muito trabalho além de desempenhar diligentemente o papel para o qual foi conduzida por aquele povo. Algumas vezes sentava por horas a fio com a cabeça enterrada entre as pernas à sombra de sua casa – uma cabana suntuosa, para os padrões Taureg, ao menos. Em outras ocasiões escalava o próprio “palácio” e, de cima, gritava, rugia, e cuspia movimentos extravagantes. Ao que a tribo respondia aglomerando-se a volta daquele espetáculo e prostrando-se em total submissão.
A vida era fácil também porque a natureza presenteava o pequeno grupo humano com pescado em abundância, frutas de todos os tipos e raízes nutritivas. Alubí gozava ainda do privilegio de dispensar qualquer esforço para que essa fartura chegasse ao seu estômago sagrado. Mas tudo aquilo estava para mudar novamente. A visão das velas surgindo no horizonte, que seriam sinal de profunda alegria na época em que tinha pisado naquelas areias pela primeira vez, a encheu de terror. Não podia deixar que aquele possível resgate acabasse de uma vez com o reinado que conquistou. Naquele instante decidiu que, caso aqueles marinheiros descessem na ilha, assumiria para eles o papel de demônio...
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Os marinheiros foram capturados e, naquele momento, fritavam ao sol no centro da aldeia, amarrados a uma espécie de mastro enterrado na areia. Era desolador observar a face de desespero e agonia daqueles homens, apesar de que isso não fizesse significativa diferença para os habitantes da tribo.
As feições dos prisioneiros mudaram, no entanto, assumindo o brilho da esperança, no momento em que Olívia se aproximava deles. A despeito de sua estranha forma divinizada, os marinheiros a reconheceram e logo a saudaram, animados com a possibilidade de libertação.
- Lady Olivia, por favor, nos ajude! Explique para os selvagens que viemos...
A fala do pobre homem foi interrompida por um sonoro tapa desferido pela mulher com as costas das mãos. A tribo toda começou a gritar, alvoroçada. Olívia interrompeu a confusão apenas com o levantar do braço direito com as mãos espalmadas. Em silêncio, os Taureg aguardavam para ver os próximos movimentos de Olívia, ou melhor, Alubí
Alubí rasgou as vestes dos dois cativos e, com as unhas compridas e afiadas, arranhou-os, um depois do outro, na altura do peito. Chocados e tomados novamente pelo horror, os dois marinheiros gritaram de dor e não ousaram mais proferir palavra em direção a Alubí. A deusa, por sua vez, ordenou no idioma local que, quem pudesse, transportasse os dois homens para uma barraca escura mais distante do centro da aldeia. Designou três sentinelas para evitar que os prisioneiros fugissem.
No tempo em que estiveram presos, os exploradores foram torturados diligentemente das formas mais criativas que jamais tinham visto. Puderam conhecer as estranhas armas – lanças e machados de pedra – fabricadas por aquela tribo. Também receberam aulas completas sobre a fauna local por meio de um contato próximo, excessivamente próximo, com besouros, formigas, répteis e roedores. É claro, nada disso estava completo sem a literalmente marcante pressão exercida pelas unhas de Alubí.
A deusa do pacífico esmerou-se naqueles dias em parecer cada vez menos humana para aqueles ilustres invasores. Constantemente aparecia usando máscaras e pinturas estranhas. As estranhas infusões alucinógenas ministradas constantemente aos marinheiros completavam o assustador teatro mistificador. Já haviam se esquecido de uma vez que aquela era Olívia Thompson. Na verdade, pensavam agora ter se enganado, ou terem sido terrivelmente enganados...
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A última coisa que Alubí, que já há muito deixara de ser Olívia Thompson, esperava é ainda lembrar-se da língua natal. Porém, quando foi necessário usa-la novamente as palavras vieram sem dificuldade. Entrou novamente na cabana escura e esbravejou:
- O que vocês querem?! Que vieram fazer aqui?!
Os marinheiros apenas baixaram as cabeças – mais por total desânimo e exaustão que por rebeldia. Dois tapas estralaram fazendo-os cuspir escarro e sangue.
- Respondam! Que vieram fazer aqui?!
Aquele que aparentava ser mais velho por apresentar alguns fios brancos em meio a cabeleira negra, agora quase tão longa e desgrenhada como a de sua captora, levantou a muito custo a cabeça e começou a falar.
- Estamos a serviço da coroa inglesa – balbuciou – desembarcamos para estudar a topografia e o clima desta ilha porque pretendemos montar aqui um posto comercial.
- Quando eles voltam?! Quando vem te buscar?! – a dupla silenciou novamente.
- Vamos! Digam! Por acaso não tem amor à vida de vocês?! – gritou Alubí, emitindo uma voz esganiçada e estridente, em seu esforço para parecer assustadora. Diante da apatia dos dois a mulher soltou um grito de fúria, investindo contra o mais velho com uma lança.
- Pare! – falou o outro, dessa vez – O retorno da frota se daria em três semanas desde que desembarcamos na ilha!... – ele arfava entre uma palavra e outra, era difícil falar - Era esse o tempo necessário para cumprirmos nosso objetivo e concluir os estudos, esperaríamos os navios na costa ao entardecer, conforme o acordado...
Alubí finalmente os deixou descansar. Presos naquela barraca, era impossível para os dois saberem quanto tempo havia se passado, mas, com o que foi revelado, ela sabia exatamente quantos dias tinha para se preparar para chegada dos navios. Entrou em seus aposentos “reais” e pegou um dos poucos livros que ainda tinha guardado, e que os nativos não ousavam tocar por considerarem objetos sagrados.
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Espelhos não eram algo comum em alguns países do extremo oriente, especialmente nas infindáveis ilhas que coalhavam a Oceania e terminavam por se pulverizar por todo o Pacífico. O comércio desse objeto banal em terras europeias era, portanto, bastante lucrativo aos navios ocidentais que ousavam chegar tão longe. Olívia estava em um dessas frotas comerciais quando sofreu o naufrágio. Seu destino era a Austrália, onde seu marido tinha negócios e ela alguns parentes que planejava visitar. No fim, foi tudo por água abaixo. Ou quase tudo, pelo menos. Muitas caixas com a valiosa mercadoria foram encontradas nas praias daquela ilha perdida no tempo. Olívia tratou de, com ajuda dos músculos servis de seus leais súditos, recolher e armazenar todas em um local seguro. Distante de qualquer forma de manter os padrões estéticos exigidos pelas cortes europeias, nunca teve o interesse de abri-las. Esmerava-se, ao contrário, em esquecer tudo que remetesse a sua antiga vida, ocupada que estava em abraçar aquela nova realidade.
Agora Alubí, marchava imponente a frente de um séquito de silvícolas que arrastavam as caixas com o tesouro escondido. Arrastavam também os dois prisioneiros, imobilizados por cipós. O grupo subiu uma encosta até chegar a um penhasco onde se podia ver toda praia oeste da ilha, a única que permitia a aproximação segura de embarcações. Sob ordens da deusa, os nativos começaram a abrir as caixas e desembalar os espelhos. Posicionavam de acordo com o que Alubí instruía. As peças foram organizadas em angulações variadas, mas todas em direção à praia. Quando o ritual terminou três navios já começavam a aparecer no horizonte. Não tardou para que chegassem próximos a costa e ancorassem. Foi a deixa para que Alubí desse a ordem. Um grito soou e todos os guerreiros apontaram os espelhos para o primeiro navio. O sol, que já descia para encontrar as águas do oceano, lançou seus raios às superfícies límpidas que trataram de rebatê-las em um único ponto. Em pouco tempo as velas irrompiam em chamas, a violência das labaredas alcançou o convés e logo toda a embarcação. O mesmo aconteceu ao segundo.
O terceiro foi poupado. À distância, já se podia vê-los recolher a âncora para que pudessem zarpar e fugir daquele pedaço de mar amaldiçoado. Satisfeita, Alubí conduziu os prisioneiros a praia mais próximo, onde já os aguardava o mesmo barco em que chegaram à ilha, três semanas atrás. A deusa aproximou-se do mais velho com um punhal em mãos, do tipo que era facilmente encontrando na longínqua Londres, e cravou-o em suas costas.
- Você perderá a vida, pelo crime de ter invadido os meus domínios. – disse enquanto terminava de enterrar a lâmina no marinheiro.
Voltou-se ao outro e ergueu o punhal com o mesmo movimento. Ao descer, contudo, cortou as amarras que prendiam o jovem.
- Você ganhará a sua vida de volta, pelo mesmo crime. E voltará aos seus para contar que sobreviveu ao inferno... e para riscar esse inferno dos mapas de seu povo.
Ao ver que estava livre correu ao barco e logo começou a remar, tentando alcançar o ultimo navio que aos poucos se distanciava. Enquanto se afastava, ouvia os eufóricos gritos dos nativos ecoando pela praia. Chegavam aos seus ouvidos como canções do tártaro. Ao centro, a única imagem silenciosa era a de Alubí, cujos os cabelos reluziam com os últimos raios de sol – e os imitavam. Debaixo do braço ela protegia um livro como a uma bíblia proscrita. Na capa, os letrados poderiam ler: “Cerco a Siracusa”.
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| Pintor: Thomas Luny |


Eu penso?
ResponderExcluirEu respiro?
Eu Vivo?
Vivo pensando no controle de mim mesmo. De tudo o que possuo, ou posso ser. Vivo pensando nisso até meu ultimo dia de respiro!