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15 de dezembro de 2012

Cachimbo Sagrado

Antes de continuar, fiquem com lenda narrada pelo xamã Alce Negro, da tribo Oglala Sioux, e reproduzida em O voo do pássaro selvagem, de Joseph Campbell. Outro exemplo da força do búfalo na mitologia nativo americana:

Há muito tempo, cedo pela manhã, dois índios Sioux, armados de arco e flecha, caçavam na planície norte americana. No alto de um morro,  olhando em volta a procura de caça, viram alguma coisa à distância que se aproximava deles de uma forma estranha e maravilhosa. Quando a misteriosa coisa aproximou-se deles, notaram que era uma mulher muito bela, vestida de couro branco de gamo, carregando uma trouxa nas costas. Um dos homens sentiu imediatamente desejo sexual pela mulher. Disse isso ao amigo. O outro, porém, repreendeu-o, advertindo-o de que aquela mulher não era, com certeza, uma mulher comum. Ela chegou bem perto nesse momento, e pondo no chão a trouxa, convidou o primeiro homem a aproximar-se. Quando isso aconteceu os dois foram envolvidos subitamente por uma nuvem, e quando a nuvem subiu, havia somente a mulher e, do homem, nada mais restava do que ossos a seus pés, que eram devorados por terríveis serpentes. “Olhe bem para o que está vendo”, disse ela ao outro. “Agora, volte para o seu povo e diga para preparar um grande cabana cerimonial para a minha chegada. Eu quero anunciar ao povo algo de grande importância."


(...)

Depois de erigir a grande cabana cerimonial que era, simbolicamente, uma réplica do universo, o povo da lenda de Alce Negro reuniu-se ali, profundamente emocionado, especulando sobre quem seria a misteriosa mulher e o que ela queria comunicar. De repente, ela apareceu à porta, que dava para o Leste, e andou na direção do movimento do sol em volta do mastro: Sul, Oeste, Norte e, novamente, Leste. (...)  “Olhe para essa trouxa”, disse, “e ame-a sempre!... Ela e lela wakan (muito sagrada), e deves tratá-la como tal. Homem impuro nenhum deve ter permissão para vê-la porque, dentro desta trouxa, há um cachimbo muito sagrado. Com esse cachimbo, poderá o teu povo, nos anos que virão, enviar vozes a wakan tanka, vosso Pai e Avô.

Tirou o cachimbo da trouxa juntamente com uma pedra redonda, que colocou no chão, segurando o cachimbo com a haste voltada para o céu, continuou: “com este cachimbo sagrado andarás sobre a Terra, porque a Terra é tua Avó e Mãe, e ela é sagrada. Cada passo que deres sobre ela deve ser dado com uma prece.” (...) Da fogueira situada no centro da cabana, o fogo que simboliza Wakan Tanka, um atendente, com graveto dividido ao meio, pegou uma brasa, que colocou diante do Guardião do Cachimbo. Este, segurando o cachimbo na mão esquerda, pegou com a direita uma pitada da erva sagrada e, elevando-a quatro vezes ao céu, orou:

"Ó Avô, Wakan Tanka, eu te envio, neste teu dia sagrado, a fragrância que chegará aos céus no alto. Dentro desta erva está a Terra, esta grande ilha: nela está minha Avó, minha Mãe, e todas as criaturas de quatro pernas, aladas e de duas pernas que andam de maneira (wakan) sagrada. A fragrância desta erva cobrirá todo o universo. Ó Wakan Tankan, tende piedade de nós. ”

O fornilho do cachimbo era em seguida colocado sobre a erva aromática que queimava, isto de tal maneira que a fumaça perfumada, entrando, passasse pela haste e saísse pela boquilha, na direção do céu. Dessa maneira, Wakan Tanka era o primeiro a fumar, e o cachimbo, através desse ato, era purificado. Em seguida, enchido com tabaco, que havia sido oferecido nas seis direções: Oeste, Norte, Leste, Sul, céu e terra. “Desta maneira”, disse o feiticeiro, “todo o universo é colocado dentro do cachimbo”. E, finalmente, o homem que enche o cachimbo deve identifica-lo consigo mesmo. Em uma prece essa identidade é descrita. Diz a prece: 



Olha a junta da haste, disseram eles,
Isso considero a articulação do meu próprio pescoço.

Olha o bocal do cachimbo,
Isso considero minha boca.

Olha o lado direito do cachimbo,
Isso considero o lado direito do meu corpo.

Olha a haste do cachimbo,
Isso considero minha própria espinha.

Olha o lado esquerdo do cachimbo,
Isso considero o lado esquerdo do meu corpo.

Olha o interior do cachimbo,
Isso considero o interior do meu corpo.

Em suas orações, usa o cachimbo como oferenda,
E tuas preces serão prontamente atendidas.

(...)


********************


Dando a volta na cabana, na direção do movimento do Sol, ela foi embora, mas depois de caminhar por uma curta distância olhou para trás e para o povo e sentou-se. Quando voltou a levantar-se, o povo viu assombrado que ela havia se transformado em um novilho vermelho e castanho de búfalo. O novilho andou por uma pequena distância, deitou-se, e rolou no chão, olhou para o povo e, quando levantou-se, era um búfalo branco. Este búfalo andou por uma pequena distância, rolou no chão e, quando se levantou, era preto. O búfalo preto afastou-se e, quando estava muito longe do povo, virou-se, fez uma mesura nas quatro direções, e desapareceu no alto do morro.

A mulher wakan, por conseguinte, fora o aspecto feminino do próprio búfalo cósmico. Ela era o bezerro vermelho de búfalo, cor de terra, mostrado no fornilho do cachimbo, mas também a mãe, o búfalo branco, e a avó, o preto. Elas foram embora para recuperar sua parte eterna, tendo presenteado o homem com aqueles pensamentos e coisas sagradas, através dos quais se ligaria a sua própria eternidade, que é aqui e agora, nele e em todas as coisas, neste mundo vivo.

Outra versão da lenda aqui e aqui.


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