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20 de maio de 2013

O homem que foi em busca do medo (Parte Final)


Imagem: Gerd Altmann
Eis a quarta e última parte da história O homem que foi em busca do medo, dos irmãos Grimm. Esclareço que, por hora, as atualizações desse blog serão apenas esporádicas, visto que estou envolvido em outros projetos.

Acesse o início da história aqui, e as partes 2 e 3 clicando nos links.

E divirtam-se com a parte final!

A segunda noite o rapaz novamente foi para o velho castelo, sentou-se a beira do fogo, e, uma vez mais começou seu velho murmúrio: “Se eu pudesse me arrepiar...” Quando a meia-noite chegou ouviu-se uma algazarra e um barulho de queda, no inicio baixo, mas que foi ficando cada vez mais alto. Depois, tudo ficou quieto por um instante, em meio a um grito, metade de um homem desceu pela chaminé e despencou próximo ao rapaz. “Olá”, disse ele, “isto não está certo! Onde está a outra metade?”


Em seguida, a algazarra começou novamente, veio um rugido e um uivo, e a outra metade caiu. “Esperem”, disse, “vou atiçar um pouco o fogo para você.” Quando ele terminou de dizer isso, as duas partes já haviam se juntado e um homem horrível agora estava sentado ao seu lado. “Ei, isso não foi o combinado”, disse o rapaz, “esse banco é meu!” O homem quis afastá-lo, o jovem, contudo, não permitiu isso, empurrou o estranho com toda sua força e novamente sentou em seu lugar.

Depois, mais homens continuaram a cair, um após o outro; eles traziam consigo nove tíbias e duas caveiras, e as arrumaram de forma que pudesse começar a jogar boliche com elas. O jovem, que também queria jogar, disse:

- Escutem, posso jogar também?

- Sim, se você tiver algum dinheiro.

- O suficiente – disse ele – mas as suas bolas não são redondas o suficiente.
Então ela levou as caveiras até o torno e torneou-as até que elas ficassem completamente redondas.

- Agora sim vamos nos divertir! – exclamou animado.

Ilustração: Hermann Vogel
Ele jogou e chegou a perder parte do seu dinheiro, mas, quando chegou a meia noite, todos aqueles homens estranhos simplesmente desapareceram sem deixar vestígios. Então ele deitou-se e adormeceu. Na manhã seguinte o rei foi até ele novamente.

- E aí, como tem se saído até esse momento?

- Eu joguei um pouco de boliche e perdi alguns cobres.

- Conseguiu se arrepiar desta vez?

- Que nada! Na verdade eu me diverti bastante! Mas se ao menos eu pudesse também ter aprendido como se arrepiar...

Chegada a terceira noite, ele sentou-se novamente no seu banco e disse melancolicamente: “Se eu pudesse me arrepiar...” Quando foi ficando tarde, seis homens altos vieram carregando um caixão. Então ele pensou: "Ah, com certeza deve ser meu primo, que morreu faz alguns dias.” E começou a chamá-lo com o dedo:

- Venha, primo, venha....

Os homens deixaram o caixão no chão, o rapaz se aproximou e retirou a tampa. Dentro, havia um homem morto. Ele pôs a mão no rosto do cadáver e percebeu que estava frio como gelo.

- Espere – disse – eu vou esquentá-lo um pouco. – foi ao fogo, esquentou as mãos, e colocou-as no rosto do morto.  Mas o homem continuava frio.

Depois, ele tirou o defunto do caixão, e sentou perto do fogo deitando o corpo dele sobre o seu e começo a esfregar os braços dele para que o sangue voltasse a circular. Como isto não funcionou, ele pensou consigo mesmo: “Quando duas pessoas deitam juntas, uma esquenta a outra”, e carregou o morto para a cama, cobriu-o e deitou-se ao lado dele.

Pouco tempo depois o cadáver foi ficando mais quente e começou a se mover.

- Ora, veja só primo! Consegui te esquentar... – mas o morto apenas gritou:

- Agora eu vou te estrangular!

- O que!? – disse o rapaz – É assim que você me agradece? Então você deve voltar novamente para o caixão.

Rapidamente ele pegou o morto, o colocou de volta no caixão e fechou a tampa. Então os seis homens voltaram e levaram o caixão embora.

- Eu não consigo descobrir como se arrepiar – disse ele – Acho que eu nunca vou aprender.
Em seguida, um homem mais alto que os demais entrou – parecia terrível. Ele era velho, porém, e tinha uma longa barba branca.

- Desgraçado! Você logo aprenderá o que é se arrepiar, porque você vai morrer!

- Não tão rápido... primeiro tem que ver se eu concordo!

- Eu vou te pegar! – disse o velho.

- Calma aí, não seja tão pretensioso.  Sou tão forte quanto você, talvez até um pouco mais.

- Isso é o que vamos ver, se você for mais forte do que eu deixo você ir embora.

O velho levou o rapaz por passagens escuras até chegar a uma forja. Pegou um machado e, de um só golpe, enfiou uma bigorna no chão.

- Posso fazer melhor do que isso – disse o rapaz, dirigindo-se para outra bigorna. O velho ficou próximo e esperou para ver o que acontecia, com sua longa barba branca pendurada. Então o rapaz desferiu um golpe poderoso que dividiu a bigorna ao meio e prendeu a barba do velho.

- Agora eu te peguei! Quem vai morrer agora?!

Ilustração: H.J. Ford
Ele pegou, então, uma barra de ferro e começou a bater no velho até que ele começou a gemer e implorar para que parasse, dizendo que iria dar grandes riquezas para o rapaz. O jovem retirou o machado e deixou ele ir. O velho levou-o de volta para dentro do castelo, e em uma cela mostrou escondidos três baús cheios de ouro.

- Desse tesouro – disse ele – uma parte é para os pobres, outra parte é para o rei e a última é sua. – Nesse meio tempo chegou a meia noite, e o espírito desapareceu, deixando o rapaz no escuro.

- Sem problemas, eu acho o caminho de volta – disse. Ele encontrou novamente a sala em que estava e adormeceu próximo ao fogo.

Na manhã seguinte o rei veio e disse:

- Agora você deve ter aprendido o que é se arrepiar...

- Não. – respondeu o rapaz – Como poderia? Meu primo morto esteve aqui, um homem barbudo veio e me mostrou um quantidade enorme de dinheiro lá embaixo, mas ninguém me disse o que era se arrepiar.

- Então – disse o rei – você salvou o reino e deve se casar com a minha filha!

- Tudo isso é muito bom, mas eu continuo sem saber o que é se arrepiar...

Depois daquilo o ouro foi retirado do local e o casamento celebrado; mas, por mais que o jovem rei amasse sua esposa, e por mais feliz que estivesse, ele continuava a dizer: “se eu pudesse me arrepiar, se eu pudesse me arrepiar.” E isso acabou por aborrecer a esposa. Até que um dia a aia da rainha disse:

- Eu posso achar uma cura para ele, logo ele aprenderá como se arrepiar.

Ela foi até o córrego que passava pelo jardim e encheu um balde cheio de peixes. A noite, enquanto o jovem rei dormia, a esposa puxou suas cobertas e esvaziou o balde cheio de água fria e peixes sobre ele. Os peixinhos pulavam e se contorciam em cima dele, que acordo gritando:

- Ah, querida! Estou todo arrepiado! Estou todo arrepiado!  Agora, finalmente eu sei o que é um arrepio!

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