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| Imagem: Gerd Altmann |
Acesse o início da história aqui, e as partes 2 e 3 clicando nos links.
E divirtam-se com a parte final!
A segunda noite o rapaz novamente foi para o velho castelo, sentou-se a beira do fogo, e, uma vez mais começou seu velho murmúrio: “Se eu pudesse me arrepiar...” Quando a meia-noite chegou ouviu-se uma algazarra e um barulho de queda, no inicio baixo, mas que foi ficando cada vez mais alto. Depois, tudo ficou quieto por um instante, em meio a um grito, metade de um homem desceu pela chaminé e despencou próximo ao rapaz. “Olá”, disse ele, “isto não está certo! Onde está a outra metade?”
Em seguida, a algazarra começou novamente, veio um rugido e um uivo, e a outra metade caiu. “Esperem”, disse, “vou atiçar um pouco o fogo para você.” Quando ele terminou de dizer isso, as duas partes já haviam se juntado e um homem horrível agora estava sentado ao seu lado. “Ei, isso não foi o combinado”, disse o rapaz, “esse banco é meu!” O homem quis afastá-lo, o jovem, contudo, não permitiu isso, empurrou o estranho com toda sua força e novamente sentou em seu lugar.
Depois, mais homens continuaram a cair, um após o outro; eles traziam consigo nove tíbias e duas caveiras, e as arrumaram de forma que pudesse começar a jogar boliche com elas. O jovem, que também queria jogar, disse:
- Escutem, posso jogar também?
- Sim, se você tiver algum dinheiro.
- O suficiente – disse ele – mas as suas bolas não são redondas o suficiente.
Então ela levou as caveiras até o torno e torneou-as até que elas ficassem completamente redondas.
- Agora sim vamos nos divertir! – exclamou animado.
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| Ilustração: Hermann Vogel |
- E aí, como tem se saído até esse momento?
- Eu joguei um pouco de boliche e perdi alguns cobres.
- Conseguiu se arrepiar desta vez?
- Que nada! Na verdade eu me diverti bastante! Mas se ao menos eu pudesse também ter aprendido como se arrepiar...
Chegada a terceira noite, ele sentou-se novamente no seu banco e disse melancolicamente: “Se eu pudesse me arrepiar...” Quando foi ficando tarde, seis homens altos vieram carregando um caixão. Então ele pensou: "Ah, com certeza deve ser meu primo, que morreu faz alguns dias.” E começou a chamá-lo com o dedo:
- Venha, primo, venha....
Os homens deixaram o caixão no chão, o rapaz se aproximou e retirou a tampa. Dentro, havia um homem morto. Ele pôs a mão no rosto do cadáver e percebeu que estava frio como gelo.
- Espere – disse – eu vou esquentá-lo um pouco. – foi ao fogo, esquentou as mãos, e colocou-as no rosto do morto. Mas o homem continuava frio.
Depois, ele tirou o defunto do caixão, e sentou perto do fogo deitando o corpo dele sobre o seu e começo a esfregar os braços dele para que o sangue voltasse a circular. Como isto não funcionou, ele pensou consigo mesmo: “Quando duas pessoas deitam juntas, uma esquenta a outra”, e carregou o morto para a cama, cobriu-o e deitou-se ao lado dele.
Pouco tempo depois o cadáver foi ficando mais quente e começou a se mover.
- Ora, veja só primo! Consegui te esquentar... – mas o morto apenas gritou:
- Agora eu vou te estrangular!
- O que!? – disse o rapaz – É assim que você me agradece? Então você deve voltar novamente para o caixão.
Rapidamente ele pegou o morto, o colocou de volta no caixão e fechou a tampa. Então os seis homens voltaram e levaram o caixão embora.
- Eu não consigo descobrir como se arrepiar – disse ele – Acho que eu nunca vou aprender.
Em seguida, um homem mais alto que os demais entrou – parecia terrível. Ele era velho, porém, e tinha uma longa barba branca.
- Desgraçado! Você logo aprenderá o que é se arrepiar, porque você vai morrer!
- Não tão rápido... primeiro tem que ver se eu concordo!
- Eu vou te pegar! – disse o velho.
- Calma aí, não seja tão pretensioso. Sou tão forte quanto você, talvez até um pouco mais.
- Isso é o que vamos ver, se você for mais forte do que eu deixo você ir embora.
O velho levou o rapaz por passagens escuras até chegar a uma forja. Pegou um machado e, de um só golpe, enfiou uma bigorna no chão.
- Posso fazer melhor do que isso – disse o rapaz, dirigindo-se para outra bigorna. O velho ficou próximo e esperou para ver o que acontecia, com sua longa barba branca pendurada. Então o rapaz desferiu um golpe poderoso que dividiu a bigorna ao meio e prendeu a barba do velho.
- Agora eu te peguei! Quem vai morrer agora?!
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| Ilustração: H.J. Ford |
- Desse tesouro – disse ele – uma parte é para os pobres, outra parte é para o rei e a última é sua. – Nesse meio tempo chegou a meia noite, e o espírito desapareceu, deixando o rapaz no escuro.
- Sem problemas, eu acho o caminho de volta – disse. Ele encontrou novamente a sala em que estava e adormeceu próximo ao fogo.
Na manhã seguinte o rei veio e disse:
- Agora você deve ter aprendido o que é se arrepiar...
- Não. – respondeu o rapaz – Como poderia? Meu primo morto esteve aqui, um homem barbudo veio e me mostrou um quantidade enorme de dinheiro lá embaixo, mas ninguém me disse o que era se arrepiar.
- Então – disse o rei – você salvou o reino e deve se casar com a minha filha!
- Tudo isso é muito bom, mas eu continuo sem saber o que é se arrepiar...
Depois daquilo o ouro foi retirado do local e o casamento celebrado; mas, por mais que o jovem rei amasse sua esposa, e por mais feliz que estivesse, ele continuava a dizer: “se eu pudesse me arrepiar, se eu pudesse me arrepiar.” E isso acabou por aborrecer a esposa. Até que um dia a aia da rainha disse:
- Eu posso achar uma cura para ele, logo ele aprenderá como se arrepiar.
Ela foi até o córrego que passava pelo jardim e encheu um balde cheio de peixes. A noite, enquanto o jovem rei dormia, a esposa puxou suas cobertas e esvaziou o balde cheio de água fria e peixes sobre ele. Os peixinhos pulavam e se contorciam em cima dele, que acordo gritando:
- Ah, querida! Estou todo arrepiado! Estou todo arrepiado! Agora, finalmente eu sei o que é um arrepio!
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