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4 de fevereiro de 2013

Pi e Outros à Deriva


Neste artigo existem revelações sobre o enredo de um filme. Se isso te incomodar, assista-o e volte ao texto.

Foto: B_cool
Assisti As Aventuras de Pi há alguns dias e fiquei bastante impactado. É certamente uma história espetacular e inacreditável, como o próprio filme revela. Muitas impressões passaram na minha cabeça durante o filme. Entre elas a profundidade como a vida espiritual de um jovem sensível aos ensinamentos de várias religiões pode ser afetada pela experiência de coexistir com um tigre em um barco a deriva durante dias. A película sugere por meio de várias sequências como tal transformação na vida de Pi pode ter acontecido. Penso, contudo, que isso não ficou completamente resolvido na trama. Estou motivado a ler o livro para verificar se o autor, Yann Martel, trabalha essa questão com mais esmero.

Ainda assim, foi um filme fenomenal. Encantou-me as primeiras cenas e o desenrolar dos acontecimentos que explica como a visão de mundo de Pi se desenvolve na infância. Desde a história do nome dele e atitude dele frente a gozação dos colegas de classe, até suas investigações devocionais e embates com o pai ateu. No mar, impressionou-me o desfile de maravilhas oníricas bem como a nunca fácil relação com Richard Parker. Este último aspecto, em particular, é um espetáculo a parte. O filme (e o livro, caso ele siga a mesma linha) exibe a conquista progressiva de uma paz árdua e negociada entre os dois personagem - que não evolui para uma amizade piegas ou a humanização do animal - um dos grandes acertos da história.

Bem, este é meu breve comentário. Para concluir, a dúvida levantada no fim do filme sobre a veracidade da narrativa de Pi, e a outra versão que ele contou sobre o naufrágio, me inspirou o exercício de escrever estas micro-histórias sobre naufrágios e gente à deriva. Bem, de vocês não almejo que acreditem nelas, mas, ao menos, me deem a chance de ser convincente:

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Foto: Tech Bro
Duas meninas sobrevivem ao ataque desferido contra o navio Almirante Borba Amaro, que navegava à costa do estado das Alagoas na noite de 9 de janeiro de 1977. O navio foi torpedeado por um submarino ultra-atlântico o qual se pensava está a serviço das forças da Linha Azul. As duas ficaram durante cinco horas agarradas em lados opostos de uma caixa de todinhos que tinha sido providencialmente esvaziada por elas próprias minutos antes da explosão. Ter desobedecido ao pai – que sempre zelou pela educação alimentar das filhas enquanto vivo – salvou a vida das crianças.

Elas recuperam-se neste momento de um quadro agudo de disenteria no Hospital Santa Mara, na cidade de Correia Grande. Os médicos, contudo, garantem que elas estão fora de perigo e poderão voltar ao convívio da família que, apesar de festejar a sorte das pequenas, chora a morte prematura do pai. O Presidente prestou condolências às vítimas da tragédia, mas, apesar dos protestos em todo país, ainda não declarou guerra às nações ofensoras.

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Trinta e sete imigrantes que arriscavam a travessia do estreito de Minamar a bordo de uma embarcação de transporte de gêneros agrícolas sobreviveram durante 60 dias em cima de um pedaço do casco do navio, que havia naufragado. O grupo, formado em sua maioria de homens jovens entre 25 e 35 anos, usou as 15 caixas de bananas, 3 de mamão e uma de kiwi que conseguiram recolher dos destroços para se alimentarem durante o tempo em que ficaram à deriva. Quando foram resgatados um homem de aproximadamente 40 anos apresentava um quadro grave de desnutrição.

Ele teria se recusado a comer as bananas e os mamões por causa de um trauma de infância provocado pela mãe, que o obrigava a engolir uma mistura das duas frutas todos os dias de manhã antes de ir pra escola. Segundo relatos dos médicos, ele teria sobrevivido com apenas dez kiwis e metade de um peixe que um amigo conseguira pescar. Ainda de acordo com os médicos, outras treze pessoas estão internadas com infecção intestinal. A suspeita é que eles teriam comido fruta estragada enquanto estavam perdidos no mar.

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Existe muitas maneiras de enlouquecer no mar ou ser dominado pela fúria e insensatez.  Aqueles homens haviam inaugurado uma nova. A selvageria tomou conta do bote no momento em que o mastim e o fila franziam o focinho exibindo de forma ameaçadora as presas. Os dois homens seguravam seus animais enfurecidos usando toda a força de seus corpos. Os olhos de ambos pareciam exibir presas, como as dos cães, prontas para ferir o oponente.

Um terceiro homem anunciou o início da luta e os cães avançaram. O fila era mais esperto: esquivou-se de uma investida do mastim e fez o inimigo bater os dentes no ar. O pescoço do incauto ficou a mostra e o fila abocanhou a jugular, derrubando o mastim no chão. Toda a cena desenrolou-se no meio do mar do caribe.

O grupo amotinado ficou a deriva depois de um plano frustrado de chegar a barbados - com o agravante de que os pouco inteligentes homens dividiam o pequeno barco com dois cães enormes. Os donos, antes parceiros na revolta, agora trocavam acusações e culpavam o animal do outro de devorar os mantimentos em uma velocidade insustentável. O resultado foi a luta entre os cães como forma de resolver as diferenças e ainda eliminar uma boca excedente. Com a morte do mastim, todos sabiam como aquela história iria terminar...

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Já faz mais de cem luas que ela se tornou a deusa da ilha dos Taureg Ru. Nesse período, ela aprendeu a contar o tempo da única forma que importa para aquele povo perdido em algum lugar perto do Trópico de Capricórnio. Antes Olivia Thompson, casada com o nobre inglês Bernard Thompson, agora era Alubí, algo como “o sol na nossa terra”. Com o naufrágio do Eastern Glory toda a vida pregressa foi apagada em definitivo. Para ela, agora, existia apenas a devoção cega de seus adoradores nativos. Os cabelos ruivos que denunciavam a origem escocesa, agora totalmente desgrenhados e armados nas seis direções, lembravam aos seus adoradores ainda mais o caráter solar da divindade que cultuavam, diferente do comportado coque que costumava usar quando era parte da aristocracia.

Pode-se dizer que ela se acostumou com a nova vida. Mais do que isso, apreciava enormemente a deferência que todos ao seu redor prestavam constantemente. Não havia muito trabalho além de desempenhar diligentemente o papel para o qual foi conduzida por aquele povo. Algumas vezes sentava por horas a fio com a cabeça enterrada entre as pernas à sombra de sua casa – uma cabana suntuosa, para os padrões Taureg, ao menos. Em outras ocasiões escalava o próprio “palácio” e, de cima, gritava, rugia, e cuspia movimentos extravagantes. Ao que a tribo respondia aglomerando-se a volta daquele espetáculo e prostrando-se em total submissão.

A vida era fácil também porque a natureza presenteava o pequeno grupo humano com pescado em abundância, frutas de todos os tipos e raízes nutritivas. Alubí gozava ainda do privilegio de dispensar qualquer esforço para que essa fartura chegasse ao seu estômago sagrado. Mas tudo aquilo estava para mudar novamente. A visão das velas surgindo no horizonte, que seriam sinal de profunda alegria na época em que tinha pisado naquelas areias pela primeira vez, a encheu de terror. Não podia deixar que aquele possível resgate acabasse de uma vez com o reinado que conquistou. Naquele instante decidiu que, caso aqueles marinheiros descessem na ilha, assumiria para eles o papel de demônio...

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Pintura: Alexey Bogolyubov



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