Neste artigo existem revelações sobre o enredo de um filme. Se isso te incomodar, assista-o e volte ao texto.
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| Foto: B_cool |
Ainda assim, foi um filme fenomenal. Encantou-me as primeiras cenas e o desenrolar dos acontecimentos que explica como a visão de mundo de Pi se desenvolve na infância. Desde a história do nome dele e atitude dele frente a gozação dos colegas de classe, até suas investigações devocionais e embates com o pai ateu. No mar, impressionou-me o desfile de maravilhas oníricas bem como a nunca fácil relação com Richard Parker. Este último aspecto, em particular, é um espetáculo a parte. O filme (e o livro, caso ele siga a mesma linha) exibe a conquista progressiva de uma paz árdua e negociada entre os dois personagem - que não evolui para uma amizade piegas ou a humanização do animal - um dos grandes acertos da história.
Bem, este é meu breve comentário. Para concluir, a dúvida levantada no fim do filme sobre a veracidade da narrativa de Pi, e a outra versão que ele contou sobre o naufrágio, me inspirou o exercício de escrever estas micro-histórias sobre naufrágios e gente à deriva. Bem, de vocês não almejo que acreditem nelas, mas, ao menos, me deem a chance de ser convincente:
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| Foto: Tech Bro |
Elas recuperam-se neste momento de um quadro agudo de disenteria no Hospital Santa Mara, na cidade de Correia Grande. Os médicos, contudo, garantem que elas estão fora de perigo e poderão voltar ao convívio da família que, apesar de festejar a sorte das pequenas, chora a morte prematura do pai. O Presidente prestou condolências às vítimas da tragédia, mas, apesar dos protestos em todo país, ainda não declarou guerra às nações ofensoras.
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Trinta e sete imigrantes que arriscavam a travessia do estreito de Minamar a bordo de uma embarcação de transporte de gêneros agrícolas sobreviveram durante 60 dias em cima de um pedaço do casco do navio, que havia naufragado. O grupo, formado em sua maioria de homens jovens entre 25 e 35 anos, usou as 15 caixas de bananas, 3 de mamão e uma de kiwi que conseguiram recolher dos destroços para se alimentarem durante o tempo em que ficaram à deriva. Quando foram resgatados um homem de aproximadamente 40 anos apresentava um quadro grave de desnutrição.
Ele teria se recusado a comer as bananas e os mamões por causa de um trauma de infância provocado pela mãe, que o obrigava a engolir uma mistura das duas frutas todos os dias de manhã antes de ir pra escola. Segundo relatos dos médicos, ele teria sobrevivido com apenas dez kiwis e metade de um peixe que um amigo conseguira pescar. Ainda de acordo com os médicos, outras treze pessoas estão internadas com infecção intestinal. A suspeita é que eles teriam comido fruta estragada enquanto estavam perdidos no mar.
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Existe muitas maneiras de enlouquecer no mar ou ser dominado pela fúria e insensatez. Aqueles homens haviam inaugurado uma nova. A selvageria tomou conta do bote no momento em que o mastim e o fila franziam o focinho exibindo de forma ameaçadora as presas. Os dois homens seguravam seus animais enfurecidos usando toda a força de seus corpos. Os olhos de ambos pareciam exibir presas, como as dos cães, prontas para ferir o oponente.Um terceiro homem anunciou o início da luta e os cães avançaram. O fila era mais esperto: esquivou-se de uma investida do mastim e fez o inimigo bater os dentes no ar. O pescoço do incauto ficou a mostra e o fila abocanhou a jugular, derrubando o mastim no chão. Toda a cena desenrolou-se no meio do mar do caribe.
O grupo amotinado ficou a deriva depois de um plano frustrado de chegar a barbados - com o agravante de que os pouco inteligentes homens dividiam o pequeno barco com dois cães enormes. Os donos, antes parceiros na revolta, agora trocavam acusações e culpavam o animal do outro de devorar os mantimentos em uma velocidade insustentável. O resultado foi a luta entre os cães como forma de resolver as diferenças e ainda eliminar uma boca excedente. Com a morte do mastim, todos sabiam como aquela história iria terminar...
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Já faz mais de cem luas que ela se tornou a deusa da ilha dos Taureg Ru. Nesse período, ela aprendeu a contar o tempo da única forma que importa para aquele povo perdido em algum lugar perto do Trópico de Capricórnio. Antes Olivia Thompson, casada com o nobre inglês Bernard Thompson, agora era Alubí, algo como “o sol na nossa terra”. Com o naufrágio do Eastern Glory toda a vida pregressa foi apagada em definitivo. Para ela, agora, existia apenas a devoção cega de seus adoradores nativos. Os cabelos ruivos que denunciavam a origem escocesa, agora totalmente desgrenhados e armados nas seis direções, lembravam aos seus adoradores ainda mais o caráter solar da divindade que cultuavam, diferente do comportado coque que costumava usar quando era parte da aristocracia.
Pode-se dizer que ela se acostumou com a nova vida. Mais do que isso, apreciava enormemente a deferência que todos ao seu redor prestavam constantemente. Não havia muito trabalho além de desempenhar diligentemente o papel para o qual foi conduzida por aquele povo. Algumas vezes sentava por horas a fio com a cabeça enterrada entre as pernas à sombra de sua casa – uma cabana suntuosa, para os padrões Taureg, ao menos. Em outras ocasiões escalava o próprio “palácio” e, de cima, gritava, rugia, e cuspia movimentos extravagantes. Ao que a tribo respondia aglomerando-se a volta daquele espetáculo e prostrando-se em total submissão.
A vida era fácil também porque a natureza presenteava o pequeno grupo humano com pescado em abundância, frutas de todos os tipos e raízes nutritivas. Alubí gozava ainda do privilegio de dispensar qualquer esforço para que essa fartura chegasse ao seu estômago sagrado. Mas tudo aquilo estava para mudar novamente. A visão das velas surgindo no horizonte, que seriam sinal de profunda alegria na época em que tinha pisado naquelas areias pela primeira vez, a encheu de terror. Não podia deixar que aquele possível resgate acabasse de uma vez com o reinado que conquistou. Naquele instante decidiu que, caso aqueles marinheiros descessem na ilha, assumiria para eles o papel de demônio...




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