Pages

Ads 468x60px

10 de março de 2013

Outros Planetas

Dia desses estava passando na frente da televisão e me deparei com um diálogo muito interessante entre um garoto e sua irmã um pouco mais velha. Achei muito bom e resolvi transcrever aqui com a fidelidade que minha memória permite e com a licença de acrescentar as cores que mais me apetecem à situação. Quem souber de que filme se trata fique a vontade para dizer nos comentários. Acrescento o crédito sem problemas.

Imagem: Luciano Mendez
O garoto acabara de voltar de uma longa visita a um tio, irmão de seu pai, que pouco conhecera na infância. O homem era cego, mas compensava a visão deficiente com uma fala bem-humorada e uma hospitalidade afetuosa a quem quer que fosse. Ficara impressionado com tudo aquilo. Acanhado, contudo, ficou mudo a visita toda. Olhava e escutava tudo com grande fascinação, mas emitia apenas pios monossilábicos. O pequeno só se manifestou depois que o tio lhe ofereceu um copo bem cheio de leite com nescau e uma tapioca com mel, duas das suas comidas preferidas. Deixou ir até algumas risadas.


Chegou já ao final da tarde e correu para sentar-se em um dos banquinhos da varanda. Ficou lá, olhando coisa nenhuma, enquanto o sol descia devagar jorrando cores para todos os lados. A irmã adolescente viu o menino sorumbático e resolver sentar ao lado.

- Ei, menino! Que que houve, o gato comeu sua lingua? Falou nada o dia inteiro...

Não disse nada, o menino.

- Tá tudo bem... Mas vou ficar aqui falando nada contigo, espero que não se importe?

O silêncio se propagou ainda por alguns minutos, mas não resistiu muito tempo. Sucumbiu quando o garoto resolveu finalmente dar o ar graça:

- E se existir um planeta onde todas as pessoas são cegas...

A irmã ficou calada, só olhou para o menino com atenção.

- Essas pessoas não teriam como saber o que é a luz, como são as cores, as formas das coisas...

- É mesmo. - disse a irmã.

- Se chegasse de um outro planeta alguém que conseguia ver como é que seria?

- Acho que ele ia falar de todas essas coisas diferentes e ninguém ia acreditar.

- Ou ia parecer tão mais sabido que ia virar rei!

- É verdade - respondeu a irmã, entre risos.

Outro silêncio se apossou do espaço como Alexandre Magno da Índia antiga, mas a revoada de anjos que o seguiram logo pararam a algazarra para ouvir os dois irmãos conversarem.

- E as pessoas cegas quando morrem, será que elas continuam cegas?

- Aahhh, eu acho que não! - retrucou a irmã.

- É... eles devem ir para outro planeta onde todos podem ver novamente. Aí eles vão poder conhecer todas as coisas que antes era um mistério pra eles. As cores, os objetos, mesmo que eles estivessem longe e não pudessem tocá-los.

A irmã ficou só escutando, esperando para ver até onde subia a cabecinha doida do irmãozinho.

- Ei, pode ser que o resto das pessoas também ganhem alguma coisa depois de morrerem. Se os cegos passam a ver, todo mundo pode ganhar uma capacidade que ninguém imagina e descobrir coisas totalmente novas.

Desta vez não deu tempo do silêncio fazer troça com ninguém. O sol já submergiu todinho no horizonte e a mãe dos meninos gritou que era para todo mundo ir jantar. O menino foi o que demorou mais a atender. Ficou ainda alguns segundos vendo as estrelas despontarem risonhas do céu escuro.


Nenhum comentário:

Postar um comentário