Essa cena do conto Chapeuzinho Vermelho sempre me intrigou. Como uma menina está na frente de um lobo peludo, com presas afiadas e orelhas pontudas e, provavelmente, faminto, e acredita estar diante da própria vó. É certo que em dado momento ela percebe que existe algo errado, mesmo assim dá o que pensar: seria a Chapeuzinho um caso grave de miopia, ou teria a pobre criança uma doença neurológica rara que dificulta reconhecimento de fisionomias. Talvez as coisas simplesmente funcionem de um modo diferente nos contos de fadas...
Na verdade, o espanto diante da situação esdrúxula é apenas uma pequena amostra de tudo que esse tipo de história já me despertou ao longo da vida. O livro cuja capa ilustra a abertura do artigo é um exemplo de coletânea de contos ainda mais impressionantes e misteriosos que Chapeuzinho Vermelho. Aliás, este figurava para mim entre os mais banais mesmo na infância. Dessa edição em particular recomendo O pássaro de ouro, As três folhas da serpente e o cômico O homem que foi em busca do medo – e o deleite com as maravilhosas ilustrações de Ricardo Leite.
Pois bem, o impacto com esse tipo de experiência certamente é algo familiar para uma parte considerável dos leitores deste blog. Os contos de fadas nos conquistam porque combinam elementos totalmente fantasiosos a outros estranhamente familiares. Ao mesmo tempo em que nos fala de outro mundo revela sentimentos e impressões que, de tão próximos, chegam a ser íntimos. Sobre o tema, Joseph Campbell escreveu no capítulo em que analisa a obra dos irmãos Grimm, no livro O voo do pássaro selvagem: "Os incidentes ‘monstruosos, irracionais, antinaturais’, porém, são de tipo semelhante aos mitos e, na verdade, frequentemente deles derivam. Têm que ser explicados da mesma maneira que os mitos são explicados."
Para entender a afirmação de Campbell é importante conhecer a distinção que ele faz de mito, lenda e conto. É basicamente o seguinte: mitos são narrativas religiosas simbólicas da ação da eternidade sobre o tempo, lendas apropriam-se de elementos mitológicos para narrar eventos humanos e os contos, por fim, têm como meta o lazer – histórias a beira da lareira. Em outras palavras, os contos não eram nada mais do que puro entretenimento, despidas da aura grandiosa dos mitos e lendas.
No capítulo mencionado, o autor discorre ainda sobre a origem dos contos transcritos a risca pelos irmãos Grimm a partir do relato de pessoas comuns. Quando os estudiosos alemães empreenderam sua hercúlea tarefa de catalogação tinham por conta que aquelas histórias eram remanescentes diretos de antigas crenças germânicas tribais.
Pesquisas posteriores revelaram, contudo, que os contos vieram de uma miscelânea de fontes que iam desde a livre adaptação do boca a boca até a incorporação de coletâneas importadas de terras distantes, como a célebre Mil e Uma Noites e o Panchatantra – conjunto de fábulas indianas disseminadas no mundo todo e traduzidas em dezenas de línguas. Entram nesse balaio também as lendas celtas que sobreviveram ao contexto de cristianização da Europa.
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| Gravura: Syrischer Maler / Cena de uma das histórias do Panchatantra |
Sendo assim, é forçoso concluir que a ideia de que os contos de fadas são uma herança autêntica e pouco alterada de um passado tribal não resiste às evidências. O que se pode depreender de uma análise histórica acurada é que eles são na verdade o resultado de um intercâmbio dinâmico entre fontes de diversas origens.
Ainda assim, Campbell identifica em meio ao caldo de ideias e símbolos elementos de origem mítica e que, portanto, guardam os aspectos transcendentais e espirituais dos mitos. São os tais “incidentes monstruosos, irracionais, antinaturais” que se misturavam aos aspectos prosaicos e também chamaram a atenção dos irmãos Grimm e outros estudiosos das histórias populares.
Seriam justamente essas passagens que fogem ao puro didatismo típico de uma fábula de La Fontainne e impacta profundamente a nossa sensibilidade. São os castelos de ouro, as donzelas adormecidas por séculos, as raposas sábias e as florestas encantadas. São pedaços de sonhos. E é justamente dos sonhos que Campbell acredita provir todos os elementos míticos.
O autor elenca diversas teorias sobre a origem dos mitos incluindo aí a explicação dos fenômenos misteriosos da natureza, o medo da morte, o êxtase induzido pelos rituais e as lendas sobre figuras heroicas reais. Seriam, segundo Campbell, a linguagem simbólica dos sonhos que teriam permitido aos seres humanos em várias épocas interpretar e reorganizar todos esses fenômenos e vertê-los na forma dos mitos e, também, dos contos populares.
A secularização típica da modernidade erodiu muito da antiga força dos mitos, mas, curiosamente, os contos e histórias populares mantiveram boa parte do seu poder. Passaram por debaixo do radar, segundo aponta Campbell pouco antes de encerrar o capítulo:
“Mas, por um irônico paradoxo, o simbolismo brincalhão da história popular – o produto da hora vaga – parece-nos hoje mais poderoso, com mais possibilidade de sobreviver, do que o poder e o peso do mito. (...) Daí quando os ácidos do espírito moderno dissolveram os reinos dos deuses, as histórias populares, em sua essência, mal foram atingidas. Os elfos eram menos reais do que haviam sido antes, mas as histórias, pela mesma razão, tornaram-se mais vivas.”
É possível, pois, que as histórias populares e suas herdeiras transposta para as mídias modernas - cinema, televisão, quadrinhos - sejam o nosso principal passaporte para as realidades oníricas presentes nos mitos. E para redescobrir uma linguagem tão antiga quanto o ser humano.
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| Gravura: Robert Anning Bell |


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Muito bom texto :)
ResponderExcluirÉ por isso que o Homem Aranha, o Superman e o Luke Skywalker não vão embora nunca... É que eles trazem algo neles que existe sempre, além das histórias e além até mesmo da própria linguagem...
Abs
raph
Grato, Raph!
ExcluirPelo menos essa também é a minha humilde impressão até o momento!! rsrs
Abs!