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7 de abril de 2013

O Homem que foi em busca do medo (Parte 1)

Foto: Roamata

Alguns heróis percorrem léguas enfrentando orcs e outros inimigos para destruir um anel amaldiçoado. Outros preferem entrar numa escola de magias e perder a adolescência tentando derrotar um bruxo das trevas. Há os que lutam contra moinhos pensando serem gigantes e os que viajam no tempo a bordo de um carro estiloso dos anos oitenta.

São muitas opções para quem quer se aventurar ou arriscar a vida em prol de uma causa maior. Mas nesse conto dos irmãos Grimm o herói parte em uma jornada para descobrir algo que aparentemente já é bem familiar para a maioria dos outros heróis: o medo.

Bem, no espírito do post anterior desse blog, vamos a um dos contos de fada preferidos da minha infância:


Um certo pai tinha dois filhos, o mais velho era esperto e sensível, e podia fazer qualquer coisa, mas o mais novo era estúpido e não era capaz de aprender ou compreender nada. Quando as pessoas o avistavam diziam:

- Coitado do pai dele! Vai ter que carregar esse peso pelo resto da vida...

Sempre que algo precisava ser feito, era sempre o mais velho que tinha que resolver tudo. Mas quando era preciso ir a algum lugar tarde da noite, principalmente passando pelo cemitério de uma igreja ou outro lugar sombrio, o primogênito dizia: “Não, pai, eu não vou! Fico todo arrepiado!”, tal era o medo que sentia.

Em outras ocasiões, quando as pessoas se reunião para contar histórias sombrias a volta da fogueira e alguém dizia “Isso é arrepiante!”, o mais novo ficava no canto pensativo, tentando descobrir o que aquelas pessoas queriam dizer. “As pessoas vivem dizendo que ‘isso me arrepia’, ‘isso é de arrepiar’ ”, pensava ele. “Parece mais uma dessas coisas que eu nunca vou entender!”

Aconteceu que seu pai veio falar-lhe certo dia:

- Ouça-me filho, você está crescendo alto e forte e também precisa aprender algum ofício para ganhar seu pão. Veja como seu irmão trabalha, mas você, nunca traz um tostão para casa.

- Bem, pai – respondeu ele – na verdade eu tenho uma vontade enorme de aprender algo, quero aprender a me arrepiar.  Nunca entendi direito o que é isso.

O irmão mais novo riu quando ouviu aquilo, e pensou consigo mesmo: “Santo Deus! Que irmão estúpido eu tenho! Ele nunca vai servi pra nada na vida!”

O pai olhou, pensou e disse para o caçula:

- Você vai aprender logo como se arrepiar, mas não ganhará o seu pão disso, pode ter certeza.

Pouco depois o sacristão visitou a casa daquela família. O pai aproveitou para contar sobre a situação que estava vivendo e como o filho mais novo se mostrava incapaz de aprender qualquer coisa.

- Imagine que quando o questionei sobre como ele faria para ganhar o próprio pão, ele me veio com essa de que quer aprender a se arrepiar.

- Se é só isso não há problema – replicou o sacristão – Ele aprenderá a se arrepiar comigo. Mande-o a mim e eu logo resolverei isso. – O pai ficou muito feliz com a oferta. “Bom, ao menos pode servir para dar uma boa lição”, pensou.

O sacristão recebeu o rapaz em sua casa e o incumbiu de tocar os sinos da igreja. Depois de um ou dois dias, quando já passava da meia noite, o sacerdote acordou o novo empregado e ordenou que ele subisse a torre para tocar o sino. “Logo tu saberás o que é se arrepiar”, pensou. Secretamente, subiu na torre antes do rapaz. Quando este chegou ao local e já se preparava para puxar a corda viu uma figura branca parada no lado oposto, próximo às escadarias.

- Quem está aí? – perguntou o garoto – responda agora ou retire-se! É proibido entrar aqui!
Contudo, o sacristão permaneceu imóvel como um fantasma. O rapaz gritou uma segunda vez:

- O que você quer? Se você for um homem honesto fale, do contrário eu te empurrarei escada abaixo! – O sacerdote pensou consigo mesmo: “ele não seria capaz de fazer uma coisa dessas.”

Ilustração: Hermann Vogel
Assim, o falso espírito continuou sem emitir nem um som e parado feito uma pedra. O garoto tentou uma última vez chamar a atenção da criatura, mas como não houve resposta ele não hesitou em empurrar a aparição escada abaixo. O pobre sacristão rolou dez degraus até chocar-se contra a parede.

O coitado ficou lá, estendido no chão, enquanto o rapaz finalmente tocou o sino, voltou para casa e, sem dizer uma palavra sobre o assunto, deitou-se e dormiu. A esposa do sacristão esperou um longo tempo por seu marido, mas ele não voltou. Por fim ela ficou inquieta e resolveu acordar o rapaz:

- Você sabe onde meu marido está? Ele subiu a torre antes de você...

- Não, eu não sei – respondeu – mas alguém estava parado do outro lado das escadarias e nem se mexia nem dizia nada. Entendi que era um ladrão e o empurrei escada abaixo. Vá lá e veja se não era ele. Se for, eu peço mil desculpas.

A mulher correu e encontrou seu marido deitado e gemendo, com a perna quebrada, em um canto da escada. Ela o carregou para baixo e, depois, com gritos e choros foi se queixar ao pai do rapaz.

- Seu filho causou um grande desastre! Ele empurrou meu marido pela escadaria da torre tão forte que quebrou a perna do coitado! Não aceitaremos mais esse inútil em nossa casa! – O pai, arrasado, foi logo repreender o filho.

- Que maluquice é essa! – disse ele – Parece o diabo me azucrinando!

- Pai – replicou o garoto – ouça-me. Eu sou inocente. Ele estava lá, parado, no meio da noite, como alguém que queria fazer algum mal. Eu não podia saber quem era, e olha que eu perguntei três vezes sem nenhuma resposta.

- Filho… você só me decepciona. Saia já da minha frente, não quero vê-lo nunca mais.

- Certo, pai, muito justo, apenas espere amanhecer. Então eu vou embora e, um dia, ainda vou aprender a me arrepiar e finalmente vou ter algo com que me sustentar.

- Faço o que quiser, para mim tanto faz. Tome estas moedas e vá. Só não diga para ninguém de onde veio e quem é seu pai, pois eu me sinto envergonhado de tê-lo como filho.

- Se é só isso que quer de mim eu farei, não vou ter problemas para lembrar disso.

Quando a alvorada chegou o rapaz pôs as moedas no bolso e começou a caminhada na grande estrada. Enquanto andava, repetia continuamente para si mesmo: “Ah, se eu soubesse me arrepiar. Se ao menos eu soubesse me arrepiar...”

Continua na Parte 2...

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Foto: Martina Rathgens

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